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| Hélio Bernardo Lopes |
Diz o que já foi um socialista democrático que a democracia portuguesa já nem é bem uma democracia, sendo também que entende que o sistema democrático português está podre. De molde que surge a questão: afinal, o que pretende Henrique Neto? Pois ele explica-se-nos de um modo linear e muito transparente: uma democracia de qualidade.
Continuando na sua saga anti-democracia-sem-qualidade, Henrique reconhece que hoje se verifica uma degeneração da democracia portuguesa que é preciso combater. Por esta razão, o histórico socialista democrático determinou-se a subscrever o (porventura) mais recente manifesto. De resto, Henrique diz-nos até que já vem escrevendo sobre este tema, no mínimo, há três anos. E, como se vai podendo ver à saciedade, a generalidade dos portugueses não liga um infinitésimo a quanto vem expondo.
Mas onde achei mais graça às considerações de Henrique Neto é que este nos refere que os partidos só reagirão através da concorrência e da pressão popular. Presumo, pois, que poderá estar para surgir por aí um novo partido – ou muitos –, que será o verdadeiro, o legítimo, e que, por isso mesmo e tudo o mais, irá concitar o enorme apoio da generalidade dos portugueses, que tão insatisfeitos se mostram contra os já existentes. Será, com toda a certeza, uma vitória e peras.
Por fim, Henrique Neto escuda-se em António José Seguro e António Costa, que já se terão colocado na posição de abordar este tema, mostrando, deste modo, desconhecer completamente a História de Portugal, bem como os grandes e profundos traços culturais dos portugueses. Esquecendo completamente o que foram a monarquia constitucional e o liberalismo, a I República, as razões do surgimento da II República e o facto de só desde há três anos a esta parte se vir batendo contra algo que sempre foi perfeitamente previsível, Henrique Neto, porventura, terá tido o azar de não ter acompanhado um recente programa de bola na SIC Notícias, onde Carlos Xavier, de pronto secundado por todos restantes, explicou o fantástico equívoco do nosso comentário da bola ao redor da seleção e do nosso futebol. Henrique Neto, quase com toda a certeza, também parece acreditar que o hábito faz o monge.
Não sei o que pensa Henrique Neto da democracia norte-americana, ou da por estes instalada no Iraque ou no Afeganistão, tal como no Egito, entre tantos outros Estados. Mas seria muito útil para este nosso concidadão que tentasse contactar a mãe de um infortunado norte-americano, há dias degolado pelos facínoras a que o Ocidente chama agora Estado Islâmico. Porque a senhora diz agora que a Casa Branca a impediu de salvar a vida do filho por via do pagamento do resgate pedido. O Estado, com as suas políticas de interesse nacional, sempre acima do direito à vida. Entre todos os restantes, incluídos nas liberdades, direitos e garantias. Um Estado totalitário, portanto. Mas será que Henrique Neto acha que vigora nos Estados Unidos uma democracia? Bom, caro leitor, já não digo nada. É caso para se dizer: as reviravoltas que a vida sofre.
