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| Hélio Bernardo Lopes |
Por um lado, lá continua a mais recente saga bancária, desta vez ao redor do caso GES/BES. E então sucedem-se episódios verdadeiramente rocambolescos, que vão desde as primeiras e segundas considerações do Presidente Cavaco Silva ao redor do tema, salientando o seu conhecimento do caso como dependente das informações a si levadas pelo Governo.
Ao mesmo tempo, este salientou já que nada foi omitido ao Presidente da República, que tudo quanto solicitou foi explicado, mas que o desenvolvimento do tema sempre esteve nas mãos do Banco de Portugal. Sempre a presença da histórica maneira de ser portuguesa, a cuja luz a culpa poderá ser de alguém que não quem esteja a ser interpelado. São sempre outros.
Simplesmente, o Governo finge não perceber que o Presidente da República pode não solicitar tudo por desconhecer, precisamente, o que é esse tudo. O próprio Governo segue um caminho idêntico, respondendo com o seu silêncio em face da hecatombe que se tem vindo a poder ver ao redor deste mais recente folhetim.
Em contrapartida, este lá encontrou no anterior titular da supervisão um possível responsável pelo que se tem vindo a poder ver. Vai daí, e de pronto lançou esse responsável para um posto diferente, colocando na supervisão um outro nosso concidadão. Ou seja, a responsabilidade, afinal, foi do Neves, digamos assim...
Perante tudo isto, eis que, afinal, aí está, preto no branco, a demissão da administração do Novo Banco, aqui colocada, exatamente, pelo Banco de Portugal. Ninguém hoje duvida – até o Financial Times já percebeu o que se passou! – da verdadeira responsabilidade de tudo o que se vem passando ao redor do caso GES/BES, com a exceção da parte criminal que, talvez um dia, possa vir a ser conhecida. Mas, haverá de convir-se, é extremamente improvável que tal possa vir a ter lugar.
No meio de tudo isto, a RTP determinou-se a entrevistar Daniel Proença de Carvalho, que logo explicou que não podia tratar o tema. Mas a conversa lá continuou, embora ninguém, com um infinitésimo de bom senso, tenha atribuído qualquer valor a tais considerações. Muito sinceramente, e para lá da ação do Sistema de Justiça, é minha convicção profunda que esta entrevista só serviu para aumentar a má vontade dos portugueses contra quanto está em jogo no caso GES/BES. Incomensuravelmente mais impacto teve o texto do Financial Times.
Por fim, o comentário de Luís Marques Mendes. Com grande esforço, lá tive que o visionar. Ora, o que foi que fez este nosso comentador laranja? Bom, tentou distribuir o mal pelas aldeias, mas enfatizando essa distribuição pela equipa de Vítor Bento, pela administração de Carlos Costa e pelo Governo, mas por ordem decrescente de responsabilidade.
Assim, sobre a demissão da equipa de Vítor Bento em bloco, Luís salientou que a demissão em bloco foi incorrecta, porque os seus membros não tinham o direito de sair, mas tinham o dever de ficar. E reforçou que, mesmo não concordando, não tinham o direito de abandonar o barco. Ou seja, Marques Mendes parece entender aqui que os interesses superiores do Estado estão acima dos direitos fundamentais das pessoas. No fundo, o que um dia disse Kennedy aos americanos. Mas claro que se um dia Vítor Bento ou um seu colega se viesse a queixar, Luís logo diria que tinham podido sair, se acaso discordavam do rumo que o futuro do Novo Banco estava a ter.
Já sobre o Banco de Portugal, e sobre Carlos Costa, Luís Marques Mendes salientou que esta é a última oportunidade para o Banco de Portugal sair bem da fotografia. Ora, ninguém sabe o que quer dizer sair bem da fotografia, porque nesta está Carlos Costa mal e desde que tudo isto começou. Achei mesmo graça a esta expressão, porque a atual situação de Carlos Costa perante os portugueses, para mim, é já um isomorfismo da criada ao redor de Paulo Bento desde o Mundial do Brasil. Basta que o leitor pense por si e veja a imagem que hoje tem da intervenção de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal, mormente no caso GES/BES.
Por fim, o Governo. Aqui, Luís disse que está a ter uma posição de hipocrisia, algo que pode trazer problemas a longo prazo. Salientando que o Governo está a fazer de conta que não é nada com eles, deixando o Banco de Portugal isolado, e acrescentando que é muito feio o que o Governo está a fazer. Também aqui a expressão muito feio, para mais na sociedade portuguesa, é fraca e sem grande significado.
Como síntese, e não se podendo nunca ir contra Vítor Bento, Honório e Moreira Rato – noblesse oblige...–, a generalidade dos nossos concidadãos com ligações à Igreja Católica, mormente à Opus Dei, de pronto surgiu em defesa da venda rápida, em bloco, do Novo Banco. Como se vai poder ver, o banco comprador, quase com toda a certeza, será um banco com reconhecidas ligações a Opus Dei. Depois da derrocada com a histórica administração do BCP – tem-se tentado apontar a escolha de Paulo Teixeira Pinto como um erro...–, a Opus Dei necessita, naturalmente, de voltar a possuir um grande banco em Portugal. E há que não esquecer a essencialidade da sua projeção em Angola, hoje também já em curso. O leitor, com um pequenino trabalho, facilmente descortinará o que vai ter lugar dentro de pouco tempo. É natural, pois, que a equipa de Vítor Bento não estivesse pelos ajustes de ser coveira do que foi um grande banco português.
Por outro lado, aí está mais uma das componentes da mais recente reação em cadeia que está agora a ter lugar em Portugal: o caso do CTIIUS no seio do Sistema de Justiça. Neste domínio, para lá do falhanço do sistema, mereceu especial realce, na semana que passou, a notícia surgida de que, em 2013, a saída de João Miguel Barros, antigo chefe de gabinete da Ministra da Justiça, terá ficado a dever-se a alertas dados sobre o CITIUS, mas que não foram tidos em conta. De resto, também a equipa que criou a plataforma online em causa avisou Paula Teixeira da Cruz, acabando os responsáveis por se demitirem, uma vez que os seus alertas terão sido secundarizados. Veremos se hoje a tal plataforma referida pelo Governo estará como este referiu, ou seja, operacional.
