Je suis Frida. Wanna be, pelo menos

|Tânia Rei|
Às vezes acho que nasci com o sexo errado, e, segundo avança a ciência, nem seria descabido pensar nisso.

Não que ser homem resolva todos os processos pérfidos pelos quais uma mulher passa – é necessário continuar a tomar banho e a mudar de meias em curtos intervalos de tempo, e nem esta nova moda dos lumbersexuais muda grande coisa.

Pegando mesmo neste exemplo do homem barbado e rústico, que usa as botas de ir à azeitona para ir beber um gin a um bar da moda, imaginem que chega a moda das mulheres rústicas, que não tiram o bigode a cera e que saem à noite com a roupa de fazer limpezas ao sábado. Pois, não vejo nada de sexy nisto. Mas um homem que poupa dinheiro em giletes e aftershave… é outra história.

Um homem para estar bonito basta-lhe, primeiro, ser bonito. Um homem bonito é sempre bonito. Por outro lado, a Adriana Lima vestida e não-maquilhada, a gosto da malvadez de quem lê esta descrição, pode tornar-se, no mínimo, menos apelativa.

Uma mulher que siga tendências menos sexistas é vista como estranha. Como aquela, lembrei-me agora, de deixar crescer os pêlos das axilas para os pintar de cores garridas. Talvez isto seja mesmo estranho, e não seja bom exemplo, mas uma mulher com pêlos em demasia corre o risco de ser confundida com um gremlin que não se molhou ou comeu depois da meia-noite (dizer isto directamente a uma mulher, pode, no entanto, ter um efeito semelhante a dar uma tosta mista a um gremlin depois da meia-noite).

Para muitas mulheres, as trendy, é complicado ser mulher. Ele é as cores da moda, o cabelo, as unhas, a depilação em dias previamente marcados e um stock infindável de coisas que, muitas vezes, não sei para que servem (e, a bem dizer, não têm mesmo utilidade. Lembra-me uma vez que comprei uma tiara de noiva. A utilidade é nula, mas é bonita e estava em saldos). E parece que tudo que faz parte da mulher, ou cerca a mulher, é susceptível de ser melhorado ou passível de ser decorado. O cabelo é castanho, mas podia ter uma listinha de azul, os olhos são pequeninos, mas podem parecer duas ameixas, podem pintar-se unhas e colar todo o tipo de coisas como na porta de um frigorífico. Tudo que se invente será sempre extraordinário e vital – os sutiãs extra push up, os casacos que não tapam o frio todo mas que são giros, as coisinhas para pendurar no telemóvel que depois ficam sujas, feias e presas em tudo que mexe.

Eu tenho maquilhagem, e saltos altos e vestidos. Tenho as ditas clutch, onde não cabe um alfinete. Também gosto de ter “tardes de gaja” e ir à esteticista. Mas não sei usar tudo correctamente, e cada vez que passo numa vitrina ou vejo o feed do Facebook vejo que há uma nova tendência no mundo feminino. Os pensos higiénicos, até, parecem-me mudar a uma velocidade assustadora, de modo a tornar confusa e demorada uma operação, aparentemente, fácil e rápida. Com alas ou sem alas, super ou normais. Agora não, é preciso ver tutoriais para saber quais são a melhor escolha.

E por isso, quando não estou maquilhada e enfiada num vestido janota, canso-me de ser mulher. Canso-me de ter que explicar que não consigo traçar um contorno de eyeliner, fazer uma trança pipi e besuntar a cara com base (base não, desculpem, BB cream ou CC cream) e pôr a roupa a combinar com os sapatos antes de sair de casa, de manhã. Porque de manhã visto-me e penteio-me. Se necessário.

Prefiro acreditar que as mulheres querem-se é com atitude, mesmo que naquele dia o buço já pique um bocadinho.

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