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| Hélio Bernardo Lopes |
Não deixei de achar graça a uma tal realidade, reconhecendo, porém, como o dinheiro acaba por conseguir alcandorar ao poder gente verdadeiramente ignorante e como, por aí, a democracia não passa, de facto, de um termo corrente.
Quem estiver atento à vida do Mundo, facilmente perceberá que nunca se falou tanto de democracia, talvez nunca tenham existido tantas (ditas) democracias, mas que a generalidade dos povos do Mundo também nunca viveu no meio de tanta turbulência e com uma tão crescente perda de horizontes e de certezas. O Mundo atual, em boa verdade, tem-se vindo a tornar cansativo, gerando nos cidadãos, progressivamente, um sentido de isolamento.
Um dos dados atuais mais significativos, consequência do fim do espaço do comunismo e do desenvolvimento da globalização, é o crescente estado de endividamento dos Estados, com um galopante desenvolvimento do desemprego, com o regresso de epidemias que se supunham enterradas e com as crescentes dívidas da generalidade desses Estados em face de dois ou três, ou dos grandes interesses mundiais.
Perante tudo isto, foi deveras oportuna a decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, aprovando uma resolução destinada a promover um quadro legal internacional que regule os processos da reestruturação da dívida soberana da Argentina. Hoje, claro está, é a Argentina, mas num dia destes será um outro Estado qualquer dos desde sempre explorados pelo espaço mundial restrito dos abutres da economia e da finança.
O resultado da votação ao redor desta resolução foi muito significativo, apoiado pelos países em desenvolvimento e emergentes, constitutivos do G77, mas também da China, conseguindo que fosse aprovada com 124 votos a favor, 11 contra e 41 abstenções. Como seria de esperar, lá surgiu a oposição de potências económicas mundiais diversas, como os Estados Unidos, o Japão e alguns Estados da União Europeia. Os usuais abutres da economia mundial e dos povos que esta devia servir.
Espera-se agora que, nos meses que aí vêm, seja criado o adequado enquadramento jurídico multilateral para os processos de reestruturação da dívida soberana, sendo que até ao fim do ano se espera que estejam definidas as modalidades de negociação dos Governos face ao tema ora posto na ordem política mundial do dia: melhorar a eficiência e a estabilidade do sistema financeiro internacional e permitir o crescimento económico sustentável, inclusivo e equitativo.
Sem espanto para mim, perante o isolamento a que se viram forçados, os Estados Unidos ainda tiveram o desplante de defender que as Nações Unidas não seriam o espaço adequado para o tratamento de um tal tipo de tema! É, como voltou agora a poder ver-se, o autêntico drama dos abutres do Mundo. E sempre estou para ver se o Papa Francisco se nos mostrará satisfeito com a aprovação desta resolução das Nações Unidas, tão do desagrado dos abutres da política e dos povos do Mundo, ou se irá deixar passar tal acontecimento sem uma palavrinha. Portanto, caro leitor, esteja atento.
