O valor da Democracia Portuguesa

Hélio Bernardo Lopes
Escreve diariamente
A (dita) democracia portuguesa está hoje muito pelas horas da amargura, sejam lá os líderes os que forem. Até na generalidade dos Estados europeus é esta a realidade. Mas entre nós persiste-se em fulanizar a realidade das coisas, como se este ou aquele sejam fracos, e um ou dois outros sejam excelências singulares.

Num destes dias, foi interessantíssimo poder ouvir de Bill Clinton, aqui mesmo, em Portugal, um pedido de desculpa pelo facto dos EUA terem sido o início da crise financeira mundial. Uma objectiva realidade, mas que a atual Maioria-Governo-Presidente raramente foram capazes de publicamente reconhecer.

Mas o grande espanto surgido das palavras de Bill Clinton foi o de que se queremos que as companhias estrangeiras invistam em Portugal, agora que saímos do colete-de-forças financeiro, temos que arranjar forma de reestruturar toda a nossa dívida. Um verdadeiro sacrilégio, este de Bill ter agora proferido a palavra reestruturar, que se incluía no Manifesto dos 74 – o primeiro e o segundo. Sacrilégio!

Simplesmente, da nossa grande comunicação social – jornalistas, analistas, empresários, políticos ligados ao atual poder, economistas, gestores, banqueiros, especialistas de tudo e umas botas mais –, nem uma palavra. Nem mesmo, apenas, uma palavrinha... Um dos melhores sintomas deste tempo em que a generalidade dos portugueses bem pensantes continua a olhar de cócoras, reverencialmente, o que dizem os de lá de fora.

Depois de tudo isto, o interessante debate entre Gabriela Canavilhas e João Soares, na noite desta sexta-feira, na TVI 24. Perante uma intervenção cheia de razão de João Soares, Gabriela chamou a atenção para o imperativo de se tentar conquistar, nas próximas eleições para deputados à Assembleia da República, uma maioria absoluta, porque esse seria o único meio de o PS não ficar isolado entre a direita e a esquerda! Fiquei sorridente, ao ouvir estas palavras.

Acontece que é altamente improvável que o PS volte, algum dia, a conseguir uma maioria absoluta. A não ser que se determine a operar a justiça de devolver a quase todos os portugueses aquilo que, com gravíssima injustiça, a atual Maioria-Governo-Presidente lhes retirou. Mas, e se essa maioria absoluta não for conseguida? Vai António Costa coligar-se com a direita, com ou sem Pedro Passos Coelho? E quem diz António Costa, diz António José Seguro. Pois, a minha opinião é de que o fará. Fá-lo-á e seguirá o cardápio entretanto posto em vigor pela atual Maioria-Governo-Presidente. Se perceber isto fosse tão simples como ganhar o Euromilhões, eu seria, dentro de um ano, multimilionário.

Tem João Soares toda a razão: não se faz a um líder vencedor o que muitos militantes do PS pretendem agora fazer a António José Seguro. Porque quanto vale, então, a democracia? É, tal como disse Sócrates há dias, e hoje Seguro, uma situação única, com uma contestação a um líder que ganhou duas eleições e está legitimado democraticamente. A comparação desta situação com a das eleições antecipadas é completamente oposta, porque o líder ora contestado vem ganhando as eleições em que se envolveu, tendo partido de uma situação difícil e que, como referiu Bill Clinton, veio dos próprios Estados Unidos. Muito mais elucidativo é constatar que, no seio da atual Maioria, malgrado o desastroso resultado que teve lugar, ninguém surgiu a terreiro a pôr em causa Pedro Passos Coelho. Mesmo António Lobo Xavier, que também nos disse ir regressar por ter surgido Sócrates na campanha, não se determinou a contestar Paulo Portas. Nem Lobo Xavier nem nenhum outro do CDS/PP.

Por fim, o enorme gosto com que ouvi as palavras sinceras de discordância de João Soares em face do texto de seu pai no Público de ontem. E teve a mais cabal razão. O que agora surgiu no seio do PS, depois da segunda vitória da atual liderança, é uma excelente estimativa do que vale a prática democrática no Portugal destes dias, mormente no PS. Espero agora ansiosamente pelas palavras de José Sócrates neste domingo de amanhã.

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