Um pouco mais de reflexão

Hélio Bernardo Lopes
Escreve diariamente
Passado o momento mais imediato sobre os mais recentes resultados eleitorais, penso que se justifica agora operar uma análise um pouco mais fina do que se passou e do que sobreveio. E é o que agora tentar.

Por um lado, estas eleições destinaram-se a escolher os deputados ao Parlamento Europeu, acontecimento que, com a notável exceção da primeira vez, sempre deram grandes margens de abstenção. A grande verdade, conhecida do dia-a-dia de cada um, é que uma mui enorme maioria dos portugueses quase já não atribui um mínimo de credibilidade às instituições europeias, sendo que a generalidade dos portugueses nunca aceitaram bem a adoção do euro em substituição do escudo.

Por outro lado, a política da atual Maioria-Governo-Presidente produziu no tecido social português uma profunda descrença na democracia e na generalidade da vida política. Em nome da recuperação do País, os portugueses foram atirados para terríveis situações de pobreza, de miséria e de emigração. Coisas já tidas como impensáveis por quase todos, para mais com as falsas ideias induzidas através da entrada para a União Europeia.

Depois, e como consequência do que exponho antes, a abstenção foi enorme. Simplesmente, o estrondo do resultado da atual Maioria-Governo-Presidente foi o desde sempre estimado nas mais diversas sondagens de opinião. O que foi diferente foi o resultado do PS em face das referidas sondagens. E isto é fácil de perceber.

Para lá de tudo isto, o eleitorado do PS, de um modo geral, situa-se nos patamares das classes média, média-baixa e baixa. Ora, estes nossos concidadãos são dos mais atingidos pela política da atual Maioria-Governo-Presidente. Só que tais concidadãos já perderam a esperança de uma mudança a curto prazo, o que, de parceria com o reconhecido desinteresse pela União Europeia, fez prevalecer a distribuição da abstenção pelo eleitorado mais do PS.

Por fim, surgiram novas forças políticas – por exemplo, o Livre –, ou outras, já existentes, mas muito potenciadas – foi o caso do Partido da Terra, por via da liderança de António Marinho e Pinto. Por mérito muito próprio, a CDU viu-se fortemente reforçada, sendo justo salientar que João Ferreira foi o único candidato cuja lista apresentou uma visão própria e estruturada do que está em jogo com a adoção portuguesa do euro.

Acontece, porém, que este cenário, com mui elevada probabilidade, já não estará presente no âmbito de uma eleição para deputados à Assembleia da República, como a de 2015. Se a direção do PS conseguir ser politicamente inteligente – é coisa rara, infelizmente –, deverá começar a estudar com o Livre, com o Bloco de Esquerda e com o Partido da Terra – no mínimo – a possibilidade de pôr em funcionamento listas conjuntas para essas eleições. E até com a CDU, embora isto se torne mais difícil. Uma ideia que já não é só minha, mas agora também já de Diogo Freitas do Amaral.

É claro que o atual Governo poderá até essa data conceder benefícios diversos, apontados como consequência da sua dita boa governação. Simplesmente, os portugueses estão já hoje muito bem preparados e já não se deixam levar por uma lengalenga qualquer. A chave da vitória tem um nome: Estado Social e pensões e reformas repostas nas condições naturais e que eram as existentes ao tempo em que a atual Maioria-Governo-Presidente começou a destruí-los. Pode mesmo ser garantido para uma legislatura, mas os portugueses têm de ver a sua dignidade reposta. Aí é que está a chave para o êxito em 2015.

Mas admita agora o leitor que o atual Governo dá corpo a todos estes legítimos anseios dos portugueses. Que fazer? Pois, votar na atual oposição, porque esta, já então no poder, irá pagar muito caro se não der continuidade aos benefícios concedidos, por razões táticas, por esta maioria que nos desgraçou. É o que no-lo indica a Teoria dos Jogos: castigar quem dá mais antes do jogo, com a finalidade de conquistar as boas graças dos eleitores. Veremos se os portugueses se irão voltar a estatelar. Em 2015 e nas presidenciais que se seguirão.

Para terminar este texto, impõe-se ainda uma ligeira reflexão ao redor dos críticos de Seguro na liderança do PS. A verdade, como muito bem referiu José Sócrates, é que o PS de Seguro acabou de vencer a sua segunda eleição. Foi pouco expressiva essa vitória? Claro! Mas também o é que Mário Soares nunca conseguiu uma maioria absoluta, perdendo eleições as mais diversas. E é essencial nunca esquecer que Soares foi um dos grandes apoiantes de Pedro Passos Coelho, que via como muito simpático e com quem se podia dialogar. E isto quando Pedro Passos Coelho já havia dito ao que vinha e depois de se recusar a dialogar com Sócrates, mesmo que este precisasse desse diálogo para o bem do País.

Estes adversários de António José Seguro chegam tarde, porque o PS foi o grande porteiro que, ao longo de décadas, foi abrindo as portas que permitiram a chegada dos grandes interesses ao poder. Uma realidade que começou quase desde o início da Revolução de 25 de Abril. Quem se não lembra, por exemplo, da inacreditável aposta na UNITA? Hoje, perante a nova realidade angolana – e as restantes –, o PS está completamente fora da carroça, como usa dizer-se. E não foi António José Seguro o causador de tal situação, embora possa nunca se ter oposto à mesma.

Ainda que por pouco, a verdade é que o PS venceu esta atual Maioria-Governo-Presidente pela segunda vez. Com inteligência e com os olhos postos na defesa da dignidade dos portugueses e no interesse de Portugal, poderá bem dar corpo ao velho ditado popular de que não há duas sem três. Mas tudo se tornará mais difícil se os históricos do partido alinharem com o coro de apoiantes do PS sem Seguro, como agora de novo se dá com o PSD, o CDS/PP e jornalistas e comentadores de serviço. No fundo, se olharmos o que se tem vindo a passar, no PSD e no PS o que estará a ter lugar é um jogo estratégico de bastidores, envolvendo gente dos dois lados, desejosos de assumir um poder partilhado no futuro. Como sempre, um poder central e a dois, mas sem Passos nem Seguro...

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