Mais um vergonhoso sinal dos tempos

Hélio Bernardo Lopes
Escreve diariamente
Com os meus quase sessenta e oito anos de vida e com uma memória já longínqua, eu recordo desde novo o orgulho com que os portugueses apresentavam o seu Portugal e a correspondente sociedade como estruturas que puseram um fim na pena de morte desde quase o início desta tomada de posição.

Em contrapartida, recordo, por igual, a constante que me foi acompanhando e que é a pena de morte nos Estados Unidos. Uma realidade que aqui nos chegava pela grande comunicação social. Mas, muito acima de tudo, pelo cinema e pela literatura. Uma marca verdadeiramente horrorosa, de há muito só presente nos Estados mais primários ou nos que, por razões culturais, sempre se viram amputados de valores autenticamente vividos no domínio do humanismo de raiz cristã.

A formação dos Estados Unidos, essencialmente suportada no ambiente de cultura inglesa e protestante, construídos por via de lutas de natureza a mais diversa, e que incluiu mesmo uma terrível guerra civil, acabou por moldar uma sociedade cujas marcas de violência constituem uma das suas principais referências no plano internacional.

Hoje, para vergonha dos norte-americanos, quase não há semana que passe em que não tenha lugar um novo massacre. Horrores praticados por jovens – até muito jovens –, por antigos combatentes, etc.. O país que vai à frente do pelotão da percentagem de presos no seio da respetiva população. Certamente já ultrapassado, o mais recente valor deste índice era o de que um cada em cento e quarenta e três norte-americanos estava na prisão. Simplesmente impensável numa sociedade verdadeiramente civilizada.

De modo concomitante, a sociedade norte-americana, fruto dos grandes interesses em jogo, mantém a legislação que permite o uso e porte de arma, apesar de qualquer espírito lúcido perceber que a posse de armas de fogo, quase de um modo indiscriminado, terá sempre de gerar mais violência. É um fenómeno cujos contornos estão plenamente conhecidos, mas em que os grandes interesses acabam por determinar a legislação que continua a vigorar.

Mais recentemente – sempre se soube que a realidade teria de ser a que agora veio a lume –, ficou-se a saber (a partir de dentro) o modo completamente ilimitado como a Agência Nacional de Segurança espiava tudo e todos: estrangeiros ou norte-americanos; cidadãos correntes ou líderes políticos; autoridades religiosas ou outras; e como também se controla a principal componente da grande comunicação social.

É no meio desta balbúrdia de comando central plutocrático que agora surgiu a novidade de que a injeção letal não funciona em muitos casos, sendo muito caro para cada um dos Estados recorrer a novos e mais eficazes produtos. Sem mais, a doentia sociedade norte-americana parece estar agora a virar-se, mais uma vez, para o histórico pelotão de fuzilamento, ou mesmo para a primária cadeira elétrica.

No meio de tudo isto, o que é importante salientar é que este vergonhoso retrocesso histórico acaba por ter lugar com o primeiro presidente de origem africana, para mais democrata. Embora estas decisões compitam aos Estados, a verdade é que seria aceitável, no mínimo, uma reunião do Presidente Barack Obama com os Governadores dos Estados, em ordem a salientar-lhes que este tipo de condenações é mais um terrível acrescento à violência desde sempre presente naquela sociedade e logo deste os primeiros passos no caminho da independência. É um terrível (e bárbaro) sinal dos tempos.

www.CodeNirvana.in

© Autorizada a utilização de conteúdos para pesquisa histórica Arquivo Velho do Noticias do Nordeste | TemaNN