Grau oito na escala de Beaufort

Hélio Bernardo Lopes
Escreve diariamente
Desde a passada segunda-feira – de facto, logo pela meia-noite de domingo, durante a Quadratura do Círculo – que o estado de agitação da política portuguesa começou a subir. Espantosamente, esse crescimento deu-se a partir da vitória do PS nas recentes eleições para deputados ao Parlamento Europeu: ganhou, festejou, mas logo surgiram vozes a criticar a liderança de António José Seguro, tomada como a causa principal do resultado. Como se sabe de quanto já escrevi sobre mais esta singularidade da política portuguesa, não apoio esta explicação.

Acontece que, também estranhamente – ou não...–, os principais adversários do PS – políticos, analistas, jornalistas, etc. – vêm apontando António José Seguro como ótimo para estar na liderança do PS, porque assim tudo será melhor para a atual Maioria-Governo-Presidente no futuro. Bom, haverá de compreender-se que se trata de uma atitude estranha. Ou não...

Simplesmente, a grande verdade é que o PS de Seguro já ganhou duas eleições, ao mesmo tempo que a atual maioria de Governo sofreu a derrota de há muito esperada. Pensando apenas um pouco, a causa do magro resultado do PS só se deve à natureza destas eleições, bem como à estrutura sociológica em que se suporta o próprio partido.

Com um pouco mais de pensamento, também se percebe que a probabilidade do PS vir a ser o partido mais votado nas eleições de 2015 é enorme, embora sem o conseguir com maioria absoluta. Esta terá uma pequena probabilidade. Diga-se o que se disser, os portugueses já não vão esquecer os atentados à sua dignidade perpetrados por este Governo.

Ora, o PS de Seguro deu já provas de que não embarcará naqueles fabulosos convites ao consenso, que seria o seu próprio fim como partido. Até porque a razão do grande descontentamento se deve à destruição da dignidade das mil e uma condições ligadas às pessoas e às suas famílias.

Em contrapartida, o surgimento recente da hipótese de António Guterres vir a ser candidato presidencial, naturalmente apoiado pelo PS, impedirá completamente uma vitória de Marcelo, ou de quem vier a surgir pela direita. O que significa que a possibilidade de António Costa vir a ser o candidato apoiado pelo PS já não existe.

Como já escrevi, eu preferiria sempre Boaventura Sousa Santos como um candidato comum às forças de esquerda e ao PS, mas a lógica partidária inviabiliza uma tal escolha. Não prima aqui a inteligência política nem o interesse dos portugueses e do País.

De molde que surge a questão: sendo o PS como partido mais votado em 2015 um acontecimento quase-certo e tendo vencido agora as mais recentes eleições – foi o PS quem as venceu –, porquê vir agora pedir um congresso clarificador, se se sabe que é mínima, com quem quer que seja, uma maioria absoluta do PS? E como podem o PSD e o CDS/PP apoiar a saída do líder do PS que dizem ser para si, como partidos, o mais favorável? É estranhíssimo...

Dizem alguns comentadores que Seguro, depois da vitória do PS em 2015, acabará por se coligar com o PSD. Claro! Pois, não foi isso que fez Soares no seu segundo Governo? Não foi com o PSD que se coligou no seu terceiro? Os únicos, até agora, que defendem que o PS se junte ao PCP e a outros, em Portugal, sou eu, Diogo Freitas do Amaral, e agora já também José Pacheco Pereira.

Admitamos, porém, que Seguro deixa a liderança do PS e lhe sucede António Costa. Ganhará o PS as eleições em 2015? Claro, mas porque também isso irá ter lugar com Seguro ao leme do partido! E a razão é simples: o PS nunca ganhará estrondosamente – não terá uma maioria absoluta –, quem o fará assim serão o PSD e o CDS/PP, mas com derrota. Os portugueses vão conservar (e por muitos anos) a memória do ferrete da pobreza, da miséria e da emigração que PSD e CDS/PP lhes impuseram.

E agora pergunto eu: António Costa é capaz de assegurar que não se coligará com os que conduziram Portugal à atual situação? Garante aos portugueses que, no espaço de uma legislatura, reporá o que foi ilegal e injustamente retirado a quase todos nós? Assegura que não irá embarcar na perigosa ideia do consenso? Muito sinceramente, não creio. Mas creio que António José Seguro tudo fará para atingir tais objetivos. Como se deu até agora, e sempre vitorioso.

Mas eu não posso negar a realidade: o que se ouve dizer no dia-a-dia, justa ou injustamente, é que Seguro é fraco, que não tem imagem, que não dá segurança, etc.. Simplesmente, isto também é dito pelos defensores da direita e que abominam – abominaram sempre – o PS e os seus dirigentes de sempre. Paradoxalmente, a nossa direita hoje no poder gostaria que o PS tivesse à sua frente quem os pudesse derrotar... Haverá de compreender-se que é estranho.

O leitor, certamente atento ao que hoje decorre no seio da nossa sociedade, terá de achar tudo isto muito estranho. Mas eu peço-lhe um esforço de memória: lembra-se de achar que Freitas do Amaral era uma maravilha, e de como hoje o vê como alguém destinado a perder; já se deu conta do pânico nas hostes da direita com o surgimento de Guterres na corrida presidencial? Portanto, o que mais consegue concluir ao redor de toda esta estranheza do partido que, durante quarenta anos, foi o grande porteiro para o regresso dos grandes interesses ao poder? Porque é que, sendo Seguro assim tão fraco e mau, a direita pretende um outro líder para o PS que a possa vencer? É estranho...

Sabe o que lhe digo, caro leitor? Isto – esta balbúrdia a que vem assistindo desde a vitória do PS no passado domingo – é que é a democracia à portuguesa. A tal, tão elogiada há uma semana por um jornalista francês que trabalha em Portugal: um povo repleto de maturidade política. Pudera: se come e cala e não muda, como não terá de ser olhado como ótimo? Desde domingo, já estamos no grau oito da Escala de Beaufort.

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