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Estes glicanos podem ser reconhecidos pelo sistema imune humano, resultando na produção de elevados níveis de anticorpos naturais presentes na circulação sanguínea de indivíduos adultos. Especula-se que os anticorpos naturais direcionados contra moléculas de açúcar expressas pelas bactérias do intestino também possam reconhecer outras moléculas de açúcar semelhantes expressas por agentes patogénicos, isto é, por parasitas que podem provocar doenças em humanos.
Através de experiências realizadas em ratos, Bahtiyar Yilmaz descobriu que a expressão de α-gal por estas bactérias, quando residentes no intestino, é suficiente para induzir a produção de anticorpos naturais anti-α-gal que reconhecem a mesma molécula de açúcar na superfície do Plasmodium. De seguida, Bahtiyar descobriu que estes anticorpos ligam-se ao α-gal na superfície do parasita imediatamente após a sua inoculação na pele pelo mosquito que transmite a malária. Quando isto ocorre, os anticorpos anti-α-gal ativam um mecanismo adicional do sistema imune – o complemento – que origina pequenos furos no Plasmodium matando o parasita antes deste conseguir sair da pele. O efeito protetor é tal que, quando presentes em altos níveis no momento da picada do mosquito, os anticorpos anti-α-gal conseguem impedir que o parasita transite da pele para a corrente sanguínea e, ao fazê-lo, bloqueiam a transmissão da malária.
Antes destes estudos, já se sabia que apenas uma fração de todos os indivíduos adultos que são confrontados com a mordida de mosquitos em zonas endémicas de malária ficam infectados com o parasita Plasmodium e eventualmente desenvolvem malária. Isto sustenta a teoria que os adultos podem ter um mecanismo natural de defesa contra a transmissão de malária, que contrasta fortemente com o que se observa em crianças com menos de 3 a 5 anos de idade que são muito mais suscetíveis de contrair malária.
Com o objetivo de ultrapassar esta lacuna, Bahtiyar Yilmaz descobriu que quando os ratos eram vacinados contra uma molécula sintética de α-gal, que é relativamente fácil de produzir e económica, produziam elevados níveis de anticorpos anti-α-gal altamente protetores contra a transmissão de malária por mosquitos. Se este “truque” pode ser aplicado em humanos, em particular às crianças mais pequenas de forma a protegê-las contra a transmissão de malária, é uma questão premente que permanece por responder.
Miguel Soares comenta: “Nós observámos que crianças com menos de 3 anos de idade não têm níveis suficientes de anticorpos anti-α-gal, o que pode ser uma das razões para a sua maior suscetibilidade à malária. Uma das maravilhas do mecanismo protetor que descobrimos agora é que pode ser induzido através de um protocolo de vacinação standard, levando à produção de elevados níveis de anticorpos anti-α-gal que se podem ligar e matar o parasita Plasmodium. Se pudermos vacinar estas crianças de tenra idade contra α-gal, muitas vidas podem ser salvas.”
Este estudo foi desenvolvido no IGC em colaboração com o National Institute of Allergy and Infectious Diseases (Maryland; EUA), Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Lisboa, Portugal), St Vincent’s Hospital e University of Melbourne(Victoria, Austrália), University of Chicago (Chicago, EUA), e University of Sciences, Techniques and Technologies of Bamako (Bamako, Mali). Esta investigação foi financiada pela Bill and Melinda Gates Foundation (EUA), pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT, Portugal), e pelo Conselho Europeu de Investigação (European Research Council; ERC).
Referência do artigo: Bahtiyar Yilmaz, Silvia Portugal, Tuan M. Tran, Raffaella Gozzelino, Susana Ramos, Joana Gomes, Ana Regalado, Peter J. Cowan, Anthony J.F. d’Apice, Anita S. Chong, Ogobara K. Doumbo, Boubacar Traore, Peter D. Crompton, Henrique Silveira, and Miguel P. Soares. (2014). Gut Microbiota Elicits a Protective Immune Response against Malaria Transmission. Cell 159. Doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2014.10.053
Ana Mena (IGC)
Conteúdo fornecido por Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva
