Possuir razão e perdê-la

Hélio Bernardo Lopes
António José Seguro, nos termos do noticiado, esteve em Castelo Rodrigo, ali mesmo ao lado de Almeida. Naturalmente, conheço muito bem Castelo Rodrigo, mas por igual Figueira de Castelo Rodrigo, quer como vila, quer como concelho.

Como acontece por quase todo o País fora do litoral, Castelo Rodrigo é uma região plena de potencialidades, mas onde faltam as oportunidades. Uma realidade que fica a dever-se à falta de cuidado do poder central, mas por igual à falta de vontade e de perspetiva estratégica da generalidade dos autarcas que por ali têm passado. Os nossos próprios concidadãos locais, mesmo aqueles que estiveram longo tempo fora do País, depois de regressarem voltam ao seu comportamento inicial, marcado por uma falta de iniciativa muito típica.

Tem Seguro toda a razão quando rejeitou que essa zona do País esteja condenada ao despovoamento, não aceitando que o interior seja um imenso lar de idosos e um exército de desempregados. Embora, diga-se com verdade, não exista por ali nenhum exército de desempregados, porque os que caíram em tal situação tiveram de demandar outras terras. Em todo o caso, foi pena que António José Seguro não se tivesse inteirado – que é feito da atenção e oportunidade dos jornalistas?...– acerca do papel da Igreja Católica local e das IPSS no auxílio aos muitos carenciados locais. Também teve António José Seguro razão com a sua defesa – e proposta – da necessidade de avançar com o Plano de Reindustrialização do País, associado aos setores tradicionais e que tiveram relevo no interior – têxtil, calçado e outros –, mas por igual os associados ao tempo digital. E – digo eu – tudo quanto se prenda com o turismo, o artesanato e com os produtos alimentares locais.

De igual modo, assegurou a proposta de baixar os impostos para as empresas do interior, desde que estas criem novos postos de trabalho – é preciso andar policialmente por sobre a materialização de uma tal iniciativa...–, bem como a criação de um Plano de Desenvolvimento para o Interior de Portugal. E tudo isto, como muito oportunamente salientou, necessita de um Primeiro-Ministro que tenha uma matriz social, própria de um pais que seja solidário. Um Primeiro-Ministro que honre a palavra, que incuta confiança e esperança, e que tenha um projeto para Portugal.

Até aqui, pois, tudo bem, com a razão a assistir completamente as palavras de António José Seguro. Mas onde Seguro começou a perder essa razão foi quando apontou estar o País a voltar ao tempo de antes do 25 de Abril. Porque embora passadas quatro décadas daquele acontecimento histórico se esteja a assistir a um forte retrocesso relativamente ao que a Revolução de 25 de Abril trouxe à generalidade dos portugueses: o fecho de serviços, de extensões de saúde, de tribunais, com os portugueses a terem de emigrar novamente por não terem sustento no interior do nosso País.

A verdade é que essa não era já a realidade nos últimos dez anos da II República- segundo João Semedo, o ordenado mínimo nacional é já hoje inferior em cinquenta euros ao de 24 de Abril de 1974. É bom nunca esquecer que Marcelo Caetano, com o seu Governo, introduziu o subsídio de refeição, o subsídio eventual em valor equivalente a um décimo terceiro mês – Natal de 1972 –, e que ninguém se deitava com a ansiedade de se ver despedido no dia seguinte. Nesse tempo, quando nos deitávamos, sabíamos que o dia seguinte seria melhor. Hoje, ao adormecermos, fazemo-lo com ansiedade, certos de que o dia seguinte será pior.

E é bom, por igual, que António José Seguro nunca esqueça, enquanto viver, que Mário Soares, já com Aníbal Cavaco Silva como Presidente da República, foi um dos mais importantes apoiantes de Pedro Passos Coelho. E também que o PCP, os Verdes e o Bloco de Esquerda apoiaram, tal como a generalidade dos jornalistas, analistas e comentadores, a reprovação do PEC IV, abrindo assim a porta a uma intervenção política que se sabia ser o cerne da destruição do que de bom nos trouxera a Revolução de 25 de Abril. Começou por ter razão, mas logo a perdeu ao vir abordar o tempo da II República. Continuará, quase com toda a certeza, a desprezar o resultado do concurso O MAIOR PORTUGUÊS SEMPRE.

www.CodeNirvana.in

© Autorizada a utilização de conteúdos para pesquisa histórica Arquivo Velho do Noticias do Nordeste | TemaNN