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| Hélio Bernardo Lopes |
Aí pelas duas e meia, dei-me conta de um homem, usando uma bicicleta, ter parado junto de um conjunto muito vasto de tralha – um dos elementos era até um colchão –, destinada a ser recolhida, nessa noite, pela camioneta do lixo. Pois, lé esteve, esgravatando por tudo quanto por ali estava, colocando num saco grande, que parecia ser de pano, o que se lhe mostrou como de interesse. Um homem com o aspeto de quem estava subnutrido e bem poderia viver como sem-abrigo.
Parei a minha leitura, de um modo discreto, de molde a acompanhar o que estava a passar-se, tendo seguido o movimento do referido concidadão ao longo da rua, esgravatando em diversos outros caixotes ou locais que haviam despertado a sua atenção.
Devo dizer que, em boa verdade, embora me tenha esta situação causado algum mal-estar, a verdade é que já não se trata de algo novo. De há muito tive a oportunidade de assistir a situações deste tipo, em geral com homens e de meia idade – entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos. O que desta vez me chocou foi o que me foi dado ver cerca de dez minutos depois deste nosso concidadão ter deixado o referido lugar.
Estava eu de novo embrenhado naquele romance, já em pleno terceiro capítulo, quando me foi dado ver um outro concidadão a vasculhar naquela lixeira temporária. Desta vez, porém, o referido senhor aparentava uns quarenta anos, vestia bem, embora as calças deixassem transparecer uma magreza inesperada. Possuía, de resto, uma mui boa aparência, estando mesmo barbeado. A minha admiração, desta vez, não se ficou pelo quadro social, mas pelo período de retorno surgido: dez minutos.
Regressado, de novo, à leitura, eis que, quinze minutos depois, surgiu uma senhora idosa, com um pequenino cão preso por uma trela, lá iniciando o vasculhar do que restava da lixeira temporária inicial. Uma lixeira que, indubitavelmente, havia diminuído. Pois, esta senhora reapareceu cerca de uns dez minutos depois, por ali se quedando uns cinco, e logo seguindo no sentido da zona de onde proviera. Simplesmente, em trinta segundos surgiu, do lado contrário, um quarto concidadão, que também vasculhou o que restava, tendo retirado o que entendeu e regressado para o lugar de onde surgira.
Muito mais tarde, já depois de ter saído da varanda e ter trabalhado numa das minhas pinturas, ao regressar à varanda – as dores nas costas...–, lá fui encontrar dois jovens, bem vestidos, de calções, um com muito melhor aspeto que o outro, apreciando se valeria a pena levar, no regresso, o colchão ali abandonado.
Tudo isto terá tido lugar durante cerca de duas horas e meia, sendo que na manhã desta segunda-feira, estando ainda lá o colchão, o montículo estava imensamente reduzido. Ou seja, terão continuado as recolhas de muitos dos bens ali colocados. Uma realidade que, como se percebe, tem de ser diária e apresentar uma distribuição muito uniforme nos grandes aglomerados urbanos.
Um dado é certo: tirando a velha sopa dos pobres, eu nunca tinha assistido a um horroroso espetáculo deste tipo. No velho tempo, é provável que esta realidade também estivesse presente mais no interior do País, mas em Lisboa nunca a vi, para lá do apoio dado, localmente, a muita gente conhecida, ou de concidadãos que pediam nas ruas ou até realizavam entretenimento público, esperando doações de quem passava. Na III República, porém, o que vi nesta segunda-feira é uma realidade verdadeiramente terceiro-mundista em Lisboa. Um horror! Um horror que se desenrolava a menos de trezentos metros de uma paróquia...
