A miséria em Portugal

Hélio Bernardo Lopes
Neste passado domingo, na sequência de estar em Lisboa um estado razoável do tempo, mas também por muitos dos cafés por mim frequentados, ao redor da minha residência, estarem fechados, acabei por quedar-me na varanda da frente, lendo a excelente obra de Donna Tartt, A HISTÓRIA SECRETA, editada pela Dom Quixote. 

Aí pelas duas e meia, dei-me conta de um homem, usando uma bicicleta, ter parado junto de um conjunto muito vasto de tralha – um dos elementos era até um colchão –, destinada a ser recolhida, nessa noite, pela camioneta do lixo. Pois, lé esteve, esgravatando por tudo quanto por ali estava, colocando num saco grande, que parecia ser de pano, o que se lhe mostrou como de interesse. Um homem com o aspeto de quem estava subnutrido e bem poderia viver como sem-abrigo.

Parei a minha leitura, de um modo discreto, de molde a acompanhar o que estava a passar-se, tendo seguido o movimento do referido concidadão ao longo da rua, esgravatando em diversos outros caixotes ou locais que haviam despertado a sua atenção.

Devo dizer que, em boa verdade, embora me tenha esta situação causado algum mal-estar, a verdade é que já não se trata de algo novo. De há muito tive a oportunidade de assistir a situações deste tipo, em geral com homens e de meia idade – entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos. O que desta vez me chocou foi o que me foi dado ver cerca de dez minutos depois deste nosso concidadão ter deixado o referido lugar.

Estava eu de novo embrenhado naquele romance, já em pleno terceiro capítulo, quando me foi dado ver um outro concidadão a vasculhar naquela lixeira temporária. Desta vez, porém, o referido senhor aparentava uns quarenta anos, vestia bem, embora as calças deixassem transparecer uma magreza inesperada. Possuía, de resto, uma mui boa aparência, estando mesmo barbeado. A minha admiração, desta vez, não se ficou pelo quadro social, mas pelo período de retorno surgido: dez minutos.

Regressado, de novo, à leitura, eis que, quinze minutos depois, surgiu uma senhora idosa, com um pequenino cão preso por uma trela, lá iniciando o vasculhar do que restava da lixeira temporária inicial. Uma lixeira que, indubitavelmente, havia diminuído. Pois, esta senhora reapareceu cerca de uns dez minutos depois, por ali se quedando uns cinco, e logo seguindo no sentido da zona de onde proviera. Simplesmente, em trinta segundos surgiu, do lado contrário, um quarto concidadão, que também vasculhou o que restava, tendo retirado o que entendeu e regressado para o lugar de onde surgira.

Muito mais tarde, já depois de ter saído da varanda e ter trabalhado numa das minhas pinturas, ao regressar à varanda – as dores nas costas...–, lá fui encontrar dois jovens, bem vestidos, de calções, um com muito melhor aspeto que o outro, apreciando se valeria a pena levar, no regresso, o colchão ali abandonado.

Tudo isto terá tido lugar durante cerca de duas horas e meia, sendo que na manhã desta segunda-feira, estando ainda lá o colchão, o montículo estava imensamente reduzido. Ou seja, terão continuado as recolhas de muitos dos bens ali colocados. Uma realidade que, como se percebe, tem de ser diária e apresentar uma distribuição muito uniforme nos grandes aglomerados urbanos.

Um dado é certo: tirando a velha sopa dos pobres, eu nunca tinha assistido a um horroroso espetáculo deste tipo. No velho tempo, é provável que esta realidade também estivesse presente mais no interior do País, mas em Lisboa nunca a vi, para lá do apoio dado, localmente, a muita gente conhecida, ou de concidadãos que pediam nas ruas ou até realizavam entretenimento público, esperando doações de quem passava. Na III República, porém, o que vi nesta segunda-feira é uma realidade verdadeiramente terceiro-mundista em Lisboa. Um horror! Um horror que se desenrolava a menos de trezentos metros de uma paróquia...

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